8 de março de 2009

Garota Interrompida

Era incapaz de sonhar.
O azul de seus olhos me dava medo, mas apesar de tudo, me via cada vez mais apaixonado por ela. Criatura estranha, egocêntrica, e irritantemente maquiavélica. Tão maliciosa quanto eu, irresistível. Ela era assim, um sonho pra mim. Mas aos poucos vi esse sonho ficar cada vez mais distante, perdia o ar. Onde estará a luz que iluminava os meus dias? Lembro-me bem de cada noite que passamos juntos, cada palavra sussurrada no ouvido ou cada reação a cada movimento meu. Seu sorriso doce foi novamente substituído por um olhar duro, frio, tão seco quanto às folhas alaranjadas que agora caiam lentamente pelas calçadas. Seu sorriso debochado e cheio de maldade voltou a reinar em sua face. Estava fora de si. Cada passo que esta dava era só para distanciar-se de mim, abria um buraco dentro de meu peito. De repente um desespero me invade, uma vontade de abraçá-la novamente dizer que estou aqui para tudo que precisasse. Mas ela não queria mais o meu apoio. Não tinha coração, não tinha alma. Vagava pelas ruas completamente sem rumo, não pensava, não falava. Não fazia nada que pudesse abalar a sua paz interior que sequer existia. Cada vez mais vazia, largada, não se importava com nada, somente com o seu maldito vício que a consumia por inteiro. Só ela não percebia, claro, não havia como, era uma semimorta. Cada gota de heroína que diluía-se em seu sangue era uma gota de morte, uma gota que representava o seu desespero de uma forma tão triste. Não havia mais vida dentro dela, era apenas um corpo vazio dominado pela pior praga.
Foi a menina mais talentosa que conheci, tocava violão, escrevia bem, tinha opinião própria e era bonita. O que mais poderia pedir? Era perfeita! Cantava tão bem quanto um rouxinol pela manhã de primavera. E era tão sutil que me deixava excitado. Seu alemão fluente me deixava feliz, assim como cada fio de cabelo castanho amendoado e ondulado que ela insistia em colocar para trás. Sua forma de falar me tranquilizava. Era perfeita.
Mas no instante que a vi inconsciente pela primeira vez, tão fria, com tanto rancor. Gritava como uma louca, não queria viver. Tinha marcas de violência feitas por ela mesma nos braços. No instante em que a vi fora de si novamente, senti como se uma parte de mim agonizasse da forma mais lenta e triste possível, sentia que uma parte de mim morria.

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