22 de outubro de 2009

Diálogo de Adão e Eva;

Dois;

[...] Caminhou apressada pelas calçadas observando a água correr entre os vãos da mesma, tentou conter as lágrimas, mas foi impossível. Colocou as duas mãos sobre a cabeça, e sentiu seus cabelos molhados.
Estava chovendo.
“Por favor, chuvinha, lave toda a minha alma. Limpe toda essa sujeira.” Pedia ela incessantemente, mas tudo parecia estar contra ela. Decidiu então correr todos os quarteirões, correr à esmo já que não tinha mais para onde ir. Sua última chance havia sido descartada, não havia mais jogadas para apostar.
Estava tudo perdido.
Pensou em voltar para a casa da mãe, mas achou muita falta de consideração para com a mesma, que tanto precisava de paz. Não podia contar com seu pai, nem com outros familiares. Amor? Aquele se foi no primeiro momento em que teve oportunidade.
Estava tudo perdido.
Ela ainda mantinha o violão velho sobre as costas, e alguns trocados no bolso, mas a única coisa que conseguia fazer era correr, correr de seu destino. Ela não sentia seus pés no chão, era como se estivesse em outra dimensão, não conseguia pensar com clareza. A única coisa que ela queria fazer era chorar, descontroladamente; mas não achou justo dar esse gostinho. Correu tão apressadamente que acabou chegando ao lugar que menos queria encontrar. Lá estava ele, e nunca iria sair do lugar; aquele banquinho de praça idiota. Não pôde evitar, seus olhos se encheram de lágrimas que logo transbordaram, escorrendo pelo seu rosto. Era o pior dos banquinhos, na verdade o único ali; os outros haviam sido destruídos por vândalos. Aos soluços, resolveu sentar-se ali, mesmo com a chuva caindo incessantemente, sentou-se e colocou as mãos nas laterais do banco com cautela, como se ele fosse quebrar a qualquer momento. Lembrou-se do diálogo:
- Estou cansada.
- Porque não vai para a casa? Ainda são nove horas, sua mãe não vai brigar com você.
- Não quero ir para casa, sabe que não gosto de lá.
- Mas se acontecer algo grave com você, já que não gosta de casa, vai correr para onde?
Era como se ele previsse o futuro, como se soubesse o que estava acontecendo, mas ela nunca dissera nada, sempre ficou muito calada e isso o deixava chateado, era como se ela não confiasse nele. E ela não confiava.
- E se acontecesse alguma coisa muito ruim com você, para onde correria?
Ele nunca a respondeu.

Um comentário:

  1. Nossa voç escreve muito bem,amei!Deveria fazer um livro ...
    Selinho pra vse:
    http://sempreinvariavel.blogspot.com/

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