15 de outubro de 2010

Olá escuridão.

Às vezes, meu próprio eu me faz sofrer. Acho incrível a capacidade de como minha cabeça e coração conseguem se esquecer tão facilmente de momentos bons e deixar apenas os ruins, a ponto de me levar ao total rancor... Acontece tão rápido e com tanta naturalidade que, às vezes chego a pensar que não tenho controle sobre mim mesma, ou até duvidar do meu auto-conhecimento.

4 de outubro de 2010

04/10/10

Podia começar narrando como o maldito vício me corroeu aos poucos; podia simplesmente começar do inicio mesmo, clássico, mas o inicio de uma história sempre é difícil de contar, a gente não sabe bem por onde começar, e faz do jeito clássico. Não Quero ser assim, vou começar pelo fim.

Era Outono em Londres, observava com atenção as pessoas passando apressadas para pegar o último trem que saía às oito. O vidro da janela estava embaçado devido à minha respiração quente, ouvi passos seguidos de um barulho e então corri para o corredor, e lá estava ela caída sobre o carpete vomitando um monte de espuma branca. Me desesperei.

- Mamãe! – gritei, mas ninguém ouviu minha voz. - MA-MÃE!

Ouvi alguém bater na porta, mas ela estava trancada. Sem perceber as lágrimas desciam pelo meu rosto e o terror já havia me dominado. Ver minha irmã ali inconsciente era para mim, desesperador.

- Sunny, acorde! – mas ela não se mexeu. Uma onda de calor invadiu meu corpo, e uma tremedeira tomou conta de mim, era a certeza de que a morte havia passado por nós. Não podia conter o escândalo quando ouvi a porta de madeira de má qualidade ir ao chão. Alguém me puxou para longe de Sunny e eu gritei, sabia que aquele era um corpo sem vida, mas não suportava a idéia de deixá-la sozinha.

A chacoalharam pelos ombros, e vi seu corpo cair com violência sobre o chão frio. Tudo acontecia em slow-motion, devagar, como se nunca fosse acabar. Vi uma moça falar ao telefone, mas não escutei o que ela dizia, eu não conseguia escutar nada; era como se Deus tivesse apertado o botão “mudo” para que eu não sentisse tanta dor. Mas eu via Sunny estirada ao chão com a roupa suja de espuma branca e sangue, e tudo que eu conseguia pensar era: Puta merda Sunny, o que você fez?

Garotas Mortas Não Choram. Capítulo I.

1 de outubro de 2010

Ascensão;

(...) A lua não deu sua luz.

Vi pessoas rodando em volta de si mesmas, depois reparei que já não eram elas mesmas. Vi corpos sobre o chão e pequenos lampejos de luz acontecerem no céu. Sabia o que tinha que fazer.

Rastejei-me sobre o chão manchado de sangue e sentia a Terra estremecer debaixo de meus dedos, as pessoas que sobre ela festejavam se puseram a cair, ainda descontroladas. De repente, o ar não entrava pelos meus pulmões e o fogo começou a tomar conta de tudo que era sólido. O pânico me encontrou, e as lágrimas começaram a cair. Toda a fumaça como por magia se concentrava sobre o chão, causando um efeito diferente, como um espetáculo. Com os olhos semicerrados vi, não com tanta clareza, mas uma imagem rica em detalhes. Era a moça dos olhos acinzentados da loja, com um vestido longo e rodado, costurado com linhas banhadas em sangue e com a pele muito branca. Não parecia humana. Parecia velha, embora sua fronte fosse bastante jovial, seu jeito formal lembrava uma dama que pôde ver com seus próprios olhos as horríveis tragédias da Guerra Fria. Ela parecia mesmo uma criatura tirada de algum livro. Logo nossos olhares se encontraram, e, embora o calor do fogo afagasse minha carne com violência, senti uma frieza arrebatadora, toda a frieza que compunha seus olhos. Eu senti a morte beijar minha face. Ela estava na moça, ela estava em toda parte.