4 de outubro de 2014

O Diálogo de Adão e Eva;

Seis;

Ele disse que havia lido tudo o que ela havia escrito, e de fato, não foi sem autorização, seus papéis estavam simplesmente por toda a parte! E muitos deles para que todos vejam na internet.
 - Todos? – ela perguntou, arqueando uma sobrancelha em tom de dúvida.
 - O que me interessava.
Ela o observou por cima dos óculos, e voltou a dar atenção àquele café com leite. Ele observou ao redor, parecia tentar acalmar algo dentro de si.
 - Por que não me contou nada?
Ela levantou os olhos novamente.
 - Se eu tivesse contado, o que você teria feito?
Ele tomou um ar pensativo.
 - Foi o que pensei. – ela continuou.
 - Mas eu gostaria de ter ficado sabendo.
 - E para quê? Para sair falando por aí como você fez com a sua mentira?
Mais murros na cara em forma de palavras.
Tanto tempo passou-se, e ele nunca conseguiu perceber a hora que deveria ser mais suave.
 - Foi algo que eu gostaria que tivesse acontecido.
Ela agora o observou bem, seus olhares se encontraram e havia uma agitação dentro dela.
 - Eu não.
 - Mas você me amava!
 - E você sabia, porque tinha que escutar de minha boca?
Ele revirou os olhos, voltou a olhar ao redor para se distrair. Respirou fundo e voltou a observá-la, ela havia voltado para o seu café.
 - Você não acha que impediu que as coisas acontecessem deixando de se comunicar?
 - Acho que fiz o certo.
 - Por quê?
 - Estava me protegendo de você, entenda! Naquela época, não havia nada que pudesse te amolecer ou que fizesse você perceber o risco que corria, eu sequer pude te ajudar quando aquilo aconteceu.
 - Você se manteve longe...
 - Você me manteve longe! Não era capaz de perceber a sutileza de um toque, de um beijo, de uma palavra de carinho... Tudo era basicamente a superfície da carne para você.
Ele cruzou seus braços.
 - Me diga, se foi tudo essa tortura para você, por que simplesmente não me mandou pro inferno? Ou melhor, por que escreveu tudo isso?
 - Eu não disse que foi uma tortura.
 - Estou vendo na sua cara!
Ela bebeu o último gole de seu café, colocou a xícara na mesa, e a observou com certa tristeza.
 - Você já passou por um momento em sua vida em que percebeu que depois daquilo, nunca mais seria o mesmo?
 - Já.
 - Pois bem, foi isso o que houve. Apesar dos momentos tristes, da tortura de não saber da certeza da morte, ou como estava a vida, o que havia acontecido de fato, ou o que eu iria fazer com tudo aquilo que guardava no peito, eu passei por algo que dividiu a minha vida. Eu iria começar um novo capítulo, entende? Carregando uma série de novas experiências.
Ele a observou novamente, agora com certo carinho, até pode ser visto um leve sorriso.
 - E por que escrevi? Você já teve vontade de eternizar um momento? De deixar guardado ali todos os sentimentos, as lembranças boas e até ruins, que uma foto talvez não pudesse fazer, pela fragilidade de nossa memória?
Agora seu sorriso pode ser visto.
 - É por isso que escrevo.


Um; | Dois; | Três; | Quatro; | Cinco;


[O Diálogo de Adão e Eva consiste em pequenos fragmentos de sentimentos moldados em palavras que, nem de longe descrevem ou revelam a angústia ou o terror, muito menos o sentimento sem tamanho do que é simplesmente amar e não ser correspondido, mas mesmo assim descobrir o que é amar e depois, nunca mais conseguir sentir o mesmo.]

Um comentário:

  1. Escrever é a melhor coisa, nossa, você descarrega tudo no papel e se sente tão bem com isso haha
    soterocarioca.wordpress.com

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