26 de agosto de 2015

Cair da Lua;

O som suave e delicado das primeiras notas tocadas naquele piano velho na sala de jantar, colocado ali apenas para animar convidados, já não transmitia a mesma tranqüilidade de alguns anos atrás, ou a fazia lembrar de vários momentos de sua infância, agora ele se transformara na representação cruel de que o mundo talvez não fizesse mais sentido, e que o melhor a fazer é dar fim à própria vida, do que viver esse pesadelo que havia a abraçado e não queria mais soltar. Sentiu suas lágrimas de desespero mais salgadas do que nunca, apertou o corrimão com certa força, cravando suas unhas em madeira maciça, sentindo-se completamente vulnerável.
Ninguém poderia ajudá-la.
Pensou naquela quantidade de garotas chorando, implorando para não morrerem daquela maneira, seu coração parou por um instante. Um toque de bondade abateu seu ser pela primeira vez, e ela pôde se arrepender. Mas agora era tarde, a vida havia enviado um demônio para mostrá-la que até o predador mais poderoso da cadeia alimentar deveria sentir medo. Ela havia criado um demônio, não sabia muito bem como, de que maneira isso aconteceu, mas sabia que agora seu próximo caminho seria a morte. 
Observou a linda garota tocar seu piano, ela sequer parecia notar sua presença, mas ela sabia que estava sendo observada, mesmo não estando com seus olhos presos à sua imagem sobre a escada. Não se pode esconder nada de um demônio. Sua pele clara parecia fria como mármore, em contraste perfeito com seu vestido negro, com detalhes vermelhos. Sua boca rosada, como de uma princesa, uma linda princesa à espera de seu beijo, para poder despertar de seu transe horrível e viver um lindo sonho de amor.
Mas ninguém acordou, ao contrário, o mundo estava cada vez mais próximo do fim e nenhum de nós parecia ser digno de salvação.

21 de agosto de 2015

Estatística;

Num começo de noite dessas de primavera, fim de ano, estava eu caminhando quando encontrei em um bar um amigo de escola que há muito não conversava. Jogamos vinte minutos de sinuca e tomamos uma breja quando aquele Astra preto estacionou em frente ao bar e de dentro dele saiu dois homens armados cujo a cara mal pude ver pois já estava ao chão ensanguentado.
Pensei em minha mãe, e logo ela estava a berrar ao lado de meu corpo sem que eu pudesse ouvir.
Dias após a grande Mais uma Chacina da Periferia, minha mãe escutava entre lágrimas a televisão dizer que muita gente que morreu não tinha passagem pela polícia, porém, o que estava fazendo na rua altas horas da noite?
Fiquei sem entender. Afinal, quem está errado, quem atirou em mim, ou quem estava tentando se divertir no bar?

Desde quando existe esse toque de recolher?

12 de agosto de 2015

O que ela lê: Capitães da Areia

Capitães da Areia é um livro de Jorge Amado, foi escrito em 1937, porém, este fato de nada representa, pois, ao ler a história e conhecer os personagens, o leitor facilmente percebe os traços do nosso Brasil atual e, choca-se ao perceber a mínima mudança. O livro conta a história de um grupo de crianças – muitas delas órfãs – que, sem opção acabaram caindo à margem da sociedade praticando vários tipos de furtos e vivendo num trapiche velho à beira mar. Liderados por Pedro Bala, o grupo invade casas, furta carteiras e bens de valor na rua e à luz do dia e vivem uma vida como se nunca houvessem sido de fato crianças. Nessa situação precária, o grupo pode contar com poucas pessoas para ajudar, mas os que se interessam pela causa, acabam se apaixonando pelos meninos de rua.
Como foi o caso de Padre José Pedro, que levava palavras de conforto para as crianças e, mais de uma vez, entrou em apuros para protegê-los.
Cada uma dessas crianças carregava na bagagem da vida histórias de humilhação e horror, onde o amor ao próximo se tornou algo completamente utópico até a chegada de Dora, a única garota no trapiche, que despertou em cada um, um sentimento diferente, o sentimento que cada um deles sentia falta.
O sentimento que depois de experimentado, mudou a vida de todos de maneira literal.
O livro gira em torno do Líder Pedro Bala que, em minha humilde opinião de leitora, demonstrou ser o retrato nato do Brasil com suas conquistas acerca dos seus direitos e a sede de liberdade e democracia que cercava sua aura. Vida Seca, o afilhado de Lampião, e assim como o mesmo, com o seu ar sombrio e ódio pelos homens da lei. Sem Pernas, o pobre garoto aleijado que foi surrado por soldados, cheio de ódio em seu coração, rouba as pessoas para alimentar esse trauma guardado. Professor apaixonado pela leitura, desenha muito bem e às vezes ganhava uns trocados quando reconheciam seu trabalho. Pirulito, que sentiu através das palavras do Padre José Pedro a vocação religiosa. Gato, o vigarista que ganhava a vida de pequenos furtos e enganando pessoas pelas ruas e finalmente, Dora, uma das figuras mais importante da história, e também única garota do grupo.
Por ser uma obra de Jorge Amado, trata-se de um clássico brasileiro – assim como vários escritos pelo mesmo – porém, este em especial sofreu vários tipos de represálias, e vários exemplares foram queimados e apreendidos devido ao decreto do Estado Novo.
*Alguns outros títulos do mesmo também foram apreendidos.


Arrebenta-me o coração saber que o autor baseou-se em crianças verdadeiras para escrever esse romance, e isso explica a riqueza de detalhes. Depois que terminei de ler, fiquei um bom tempo sentada e viajando o Brasil inteiro em busca destas crianças. Minha cabeça não parou de girar nem um segundo sequer, até eu vir aqui e redigir estas palavras.
Dói saber que este livro fora escrito na década de 30 e mesmo assim, nosso país ainda sabe marginalizar muito bem aqueles que mais precisam dele, como ele tem feito todos esses anos em que tornou-se país. Tive uma epifania tão profunda, que foi difícil segurar as lágrimas.
Foi extremamente difícil sair da minha zona de conforto e perceber que as coisas não são como eu pensava. E confesso que esse livro só chegou em minhas mãos, porque eu precisava estudá-lo para fazer uma prova, então uma chegada minha acabou me dizendo que eu ia me surpreender.
Eu não sabia que o faria tanto.

Capitães da Areia também virou filme, pelas mãos de Cecília Amado em Outubro de 2011 e, apesar de não conter a riqueza de detalhes da obra – como qualquer obra transformada em filme – conta com uma excelente trilha sonora.
Segue abaixo o trailer:


9 de agosto de 2015

09/08/2015

(...) Mas quando fui ao seu quarto que tudo de fato ocorreu. Ao observar seus tênis alinhados à sua maneira, suas camisas devidamente dobradas e suas coisas guardadas no lugar em que você deixou, cada objeto ali guardava um pouco de você, mesmo que, tecnicamente, você não exista mais.
Foi esse sentimento terrível e sem nome que me acometeu, aquele momento em que a gente percebe que algo definitivo ocorreu, e não há como remediar.