12 de agosto de 2015

O que ela lê: Capitães da Areia

Capitães da Areia é um livro de Jorge Amado, foi escrito em 1937, porém, este fato de nada representa, pois, ao ler a história e conhecer os personagens, o leitor facilmente percebe os traços do nosso Brasil atual e, choca-se ao perceber a mínima mudança. O livro conta a história de um grupo de crianças – muitas delas órfãs – que, sem opção acabaram caindo à margem da sociedade praticando vários tipos de furtos e vivendo num trapiche velho à beira mar. Liderados por Pedro Bala, o grupo invade casas, furta carteiras e bens de valor na rua e à luz do dia e vivem uma vida como se nunca houvessem sido de fato crianças. Nessa situação precária, o grupo pode contar com poucas pessoas para ajudar, mas os que se interessam pela causa, acabam se apaixonando pelos meninos de rua.
Como foi o caso de Padre José Pedro, que levava palavras de conforto para as crianças e, mais de uma vez, entrou em apuros para protegê-los.
Cada uma dessas crianças carregava na bagagem da vida histórias de humilhação e horror, onde o amor ao próximo se tornou algo completamente utópico até a chegada de Dora, a única garota no trapiche, que despertou em cada um, um sentimento diferente, o sentimento que cada um deles sentia falta.
O sentimento que depois de experimentado, mudou a vida de todos de maneira literal.
O livro gira em torno do Líder Pedro Bala que, em minha humilde opinião de leitora, demonstrou ser o retrato nato do Brasil com suas conquistas acerca dos seus direitos e a sede de liberdade e democracia que cercava sua aura. Vida Seca, o afilhado de Lampião, e assim como o mesmo, com o seu ar sombrio e ódio pelos homens da lei. Sem Pernas, o pobre garoto aleijado que foi surrado por soldados, cheio de ódio em seu coração, rouba as pessoas para alimentar esse trauma guardado. Professor apaixonado pela leitura, desenha muito bem e às vezes ganhava uns trocados quando reconheciam seu trabalho. Pirulito, que sentiu através das palavras do Padre José Pedro a vocação religiosa. Gato, o vigarista que ganhava a vida de pequenos furtos e enganando pessoas pelas ruas e finalmente, Dora, uma das figuras mais importante da história, e também única garota do grupo.
Por ser uma obra de Jorge Amado, trata-se de um clássico brasileiro – assim como vários escritos pelo mesmo – porém, este em especial sofreu vários tipos de represálias, e vários exemplares foram queimados e apreendidos devido ao decreto do Estado Novo.
*Alguns outros títulos do mesmo também foram apreendidos.


Arrebenta-me o coração saber que o autor baseou-se em crianças verdadeiras para escrever esse romance, e isso explica a riqueza de detalhes. Depois que terminei de ler, fiquei um bom tempo sentada e viajando o Brasil inteiro em busca destas crianças. Minha cabeça não parou de girar nem um segundo sequer, até eu vir aqui e redigir estas palavras.
Dói saber que este livro fora escrito na década de 30 e mesmo assim, nosso país ainda sabe marginalizar muito bem aqueles que mais precisam dele, como ele tem feito todos esses anos em que tornou-se país. Tive uma epifania tão profunda, que foi difícil segurar as lágrimas.
Foi extremamente difícil sair da minha zona de conforto e perceber que as coisas não são como eu pensava. E confesso que esse livro só chegou em minhas mãos, porque eu precisava estudá-lo para fazer uma prova, então uma chegada minha acabou me dizendo que eu ia me surpreender.
Eu não sabia que o faria tanto.

Capitães da Areia também virou filme, pelas mãos de Cecília Amado em Outubro de 2011 e, apesar de não conter a riqueza de detalhes da obra – como qualquer obra transformada em filme – conta com uma excelente trilha sonora.
Segue abaixo o trailer:


3 comentários:

  1. Te enviei um convite no diHITT!!! Seguindo teu Blog!!! Um abraço!!!
    www.luceliamuniz.blogspot.com.br

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